sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Para iluminar os cantos esquecidos, hoje é dia de rock!

Rock: uma releitura de Banquete

A casa estava praticamente vazia, sem fachada. A única luz que se via vinha da sala de jantar, onde havia poucas cadeiras e uma mesa de frutas. Parecia que todo o resto da casa havia ficado para trás e que a partir de algum acontecimento, passou a existir somente aquela mesa. O que havia acontecido ali? Por que tanta luz num mesmo lugar, enquanto o resto da casa ficava esquecido? Olhei tudo de novo e vi uma porção de frutas. Um burburinho entre pessoas. 

Enquanto burburinhavam, as pessoas se serviam de frutas, umas cobertas de mel, outras partidas com as próprias mãos. “Rock, Rock, Rock, Rock (...)”, repetiam umas para as outras, sucessivamente, até se tornarem um canto único prestes a quebrar todas as telhas da casa.

Rock era o banquete daquelas pessoas que se serviam para banquetear outras, outras e outras. Como expectadora, chegava a minha vez de banquetear. Eu experimentava o Rock estanque da fachada, apta a percorrê-lo por dentro, ascender todas as luzes da casa e iluminar os cantos esquecidos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Entre dois mil e sessenta

Por Marília Marcucci


Pensar na geração dos anos 2000 em relação à geração dos anos 60 ilumina uma porção gigantesca de diferenças, mas nenhuma delas é tão impactante quanto à visão de mundo. É a visão de mundo que rege nosso comportamento, nossos pontos de vista, nossa maneira de relativizar a “verdade” e entender a “realidade” – é aquilo que dá sentido ao encontro do sujeito-humano com o mundo.

Nos anos 60, por exemplo, a visão de mundo levava jovens de universidades brasileiras às ruas para protestarem contra a ordem social que se estabelecia injustamente entre as pessoas. Havia uma consciência por justiça – uma escolha por não fechar os olhos para a desigualdade. Nos anos 2000, a visão de mundo, ou falta dela, leva os jovens dessas mesmas universidades às ruas para arrecadarem dinheiro nos sinais de trânsito em comemoração à inserção na faculdade – um espetáculo regado a vodca e cerveja nos canteiros das ruas, para entretenimento do público passante acomodado nos carros com ar-condicionado.

Nesse espetáculo, figuram também os jovens panfletários, que longe das universidades e encapados por uniformes amarelos, trabalham em torno dos sinais distribuindo folhetos de propaganda para aquele mesmo público passante. Outros jovens passam o dia erguendo bandeiras e faixas enormes tingidas com as marcas dos carros.

Algum sujeito desse público passante é capaz de imaginar que nessas mesmas ruas seguiam milhares de homens e mulheres em passeatas de várias classes numa luta comum por um mundo mais justo? Para que as pessoas pudessem desenvolver suas visões de mundo sem que lhes fossem imposta uma ordem dominante? Para que o jovem erguesse, em vez da bandeira da marca automobilística, a bandeira de um país igual para pessoas iguais?

Algum sujeito passante pode imaginar que esses mesmos homens e mulheres enfrentavam cavalarias, cassetetes, chuvas de amoníaco, tiros e atropelamentos, mas seguiam firmes em direção a sua luta? Que lhes eram arrancados os sentidos, mas nunca a visão de mundo que construíram? Que se erguiam sempre olhando para o futuro dos outros, mas nunca para o próprio corpo que jorrava sangue?

Nenhum sujeito passante pode imaginar esse contexto de vida. A ordem dominante venceu qualquer tentativa de experimentá-lo e a visão de mundo foi dilaceradamente extraída e massacrada sob diversas formas de tortura. Torturas físicas, morais e psicológicas, escancaradas naquele tempo de passeadas, mas afloradas até hoje no âmago do sujeito-humano, cuja conjunção com o mundo lhe foi arrancada por meio das crueldades mais inimagináveis possíveis. Agressão, esvaziamento, esquecimento – é tudo o que restou.

A foice e o martelo não significam mais a união das classes revolucionárias, mas estão estampados nos folhetos de propaganda em função de argumentos de consumo. A visão de mundo dos jovens de 60 é reduzida a revolta, coragem, loucura; e o conceito de revolução é atribuído a carros inovadores dos anos 2000. Um pesadelo invisível, já que o sonho do público passante é ver seus filhos consumindo no núcleo dos “universitários” – ninguém sonha em assisti-los no núcleo dos “panfletários”, como se ambos encenassem espetáculos distintos – o primeiro, de carne e osso; o segundo, de papel.

Nesse pesadelo, qualquer vestígio de visão de mundo é como assistir a um espetáculo que não acontece. É imaginar, por um lado, como seria um mundo justo, e por outro, aceitar que isso que você imaginou acabou antes de existir. É reconhecer no público passante o esvaziamento da memória, a agressão à vida e o desconhecimento do mundo, calculado entre dois mil e sessenta, para ser apenas de passagem.


“Ao Gilson, diretor de “Mulheres Vermelhas” e fundador da ONG de teatro Ribeirão Em Cena, cujos personagens não estão neste mundo apenas de passagem”

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Rock: uma releitura de Banquete

A casa estava praticamente vazia, sem fachada. A única luz que se via vinha da sala de jantar, onde havia poucas cadeiras e uma mesa de frutas. Parecia que todo o resto da casa havia ficado para trás e que a partir de algum acontecimento, passou a existir somente aquela mesa. O que havia acontecido ali? Por que tanta luz num mesmo lugar, enquanto o resto da casa ficava esquecido? Olhei tudo de novo e vi uma porção de frutas. Um burburinho entre pessoas. 

Enquanto burburinhavam, as pessoas se serviam de frutas, umas cobertas de mel, outras partidas com as próprias mãos. “Rock, Rock, Rock, Rock (...)”, repetiam umas para as outras, sucessivamente, até se tornarem um canto único prestes a quebrar todas as telhas da casa.

Rock era o banquete daquelas pessoas que se serviam para banquetear outras, outras e outras. Como expectadora, chegava a minha vez de banquetear. Eu experimentava o Rock estanque da fachada, apta a percorrê-lo por dentro, ascender todas as luzes da casa e iluminar os cantos esquecidos.

Por Marília Marcucci

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Estampido: sobre a solidão e outros poemas

Fui convidada por meu amigo e poeta Filipe Augusto Pinto Maia Peres para escrever o prefácio da publicação do seu primeiro livro:



Reproduzindo o prefácio, publicado na contra-capa do livro:

"Estampido: sobre a solidão e outros poemas" é a explosão do silêncio contido do artista-poeta que deseja despertar o vulcão humano em frente da apatia gélida, seca e incontestável das pessoas. À medida que as perturbações do eu-poético são desveladas em cada poema, percebe-se uma busca dilacerante pelo despertar do outro, cujo amor poderia libertar seu grito solitário. Nessa busca, a figura água-mar surge como uma tentativa de esperança, apta para penetrar os desejos do eu-poético e fundir-se com ele; entretanto a correnteza dessa água é tão intensa, que inunda, corta e afoga qualquer possibilidade de relação com o outro, até congelar-se e petrificar-se em granizos estanques. Assim também é experimentada a luz pelo eu-poético, cuja cascata é tão forte que em vez da claridade, proporciona-lhe a escuridão, e em vez de visão, a cegueira petrificada. A pedra sufoca o grito da sensibilidade, arrancando-lhe os movimentos.

Se para o eu-poético o processo de criação desta obra é árduo, denso, difícil, a re-criação experimentada por sua leitura é, no mínimo, perturbadora do caos e da existência do homem.

Marília Marcucci

Para adquirir o livro, mais do que recomendado, basta acessar:

http://virtualbooks.com.br/editora/livros/view/201: ESTAMPIDOS:SOBRE-A-SOLIDAO-E-OUTROS-POEMAS



sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus Saramago

Dia 18 de junho de 2010


Conheci Saramago na faculdade de letras, numa época em que minhas catarses eram provocadas por escritores que já não estavam mais entre nós, como Machado e Guimarães, por exemplo.

Eu estava lendo “Ensaio sobre a cegueira” e a pergunta surgida a cada trecho lido era: “Como alguém pode ter escrito isso?”.

Saramago. Eu me encantava pela beleza do nome, mágico, belo. Uma mistura de “sara-u” de poesia com “mago” de magia. Já estava apaixonada. Era um caminho sem volta.

Em 2008, quando assisti ao filme “Ensaio sobre a cegueira” dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meireles, fiquei rememorando o livro, costurando as linhas de Saramago, admirando cada detalhe da sua arte, e à noite, quando deitei para dormir, não conseguia. Mais uma vez, Saramago provocava em mim a inquietude da leitora apaixonada pelo artista que deseja transformar o mundo.

O artista nunca diz adeus. Meu Saramago é imortal.



Ensaio sobre a cegueira: o filme
Por Marília Marcucci, em dezembro de 2008


− E se nós fossemos todos cegos?
− Mas nós somos todos cegos!


Quando foi perguntado a José Saramago qual seria o contexto que o teria motivado a escrever o livro Ensaio sobre a cegueira, ele respondeu que a idéia não partiu de nenhum problema específico da sociedade moderna ou passada.

Enquanto ele aguardava o prato num restaurante em Lisboa, ocorreu-lhe a pergunta: “e se nós fossemos todos cegos?”

Ele poderia ter parado por aí, mas imediatamente sucedeu-lhe a resposta: “mas nós somos todos cegos − É uma cegueira histórica. A história da humanidade é um desastre contínuo, porque não usamos a razão para estender a vida, mas para destruí-la de todas as maneiras, no plano privado e coletivo. Somos cegos da razão. A humanidade não merece a vida. Os instintos servem melhor aos animais do que a razão aos homens.”

Esse desconforto, arquitetado por Saramago no romance que lhe rendeu o prêmio Nobel de literatura, foi traduzido para o cinema, depois de muitas as resistências do escritor, que nunca quis autorizar a adaptação da obra.

Dirigido pelo cineasta Fernando Meirelles, o filme, estreado no ano passado, pôde nos trazer as cenas que tanto nos inquietaram como leitores de uma narrativa tão particular e enriquecida.

Saramago sempre rejeitou a idéia de ter suas obras adaptadas ao cinema porque não queria ver a “cara” das suas personagens, que segundo ele “não significam nada”.

Tão pouco significam que sequer têm nomes. O médico, a mulher do médico, o homem da venda preta, a rapariga dos óculos escuros, o menino, o ladrão. Personagens de lugar nenhum, sem tempo, nem história, num enredo em que somente os atos importam.

Atingidos por uma epidemia de cegueira branca, todos esses personagens são colocados à sobrevivência mais sórdida e elementar possível. Para evitar que a cegueira contagie outras pessoas, eles são postos num manicômio, sem qualquer assistência humana, onde a visão é o sentido mais doloroso possível, digna apenas da mulher do médico, que se finge de cega, para não abandonar o outro. Uma agulha no palheiro.

Se no livro, o conteúdo estético dessa trama fica por conta do trabalho árduo de Saramago com as palavras; no filme, o enquadramento das imagens, a falta de foco, a ausência de cores entre outros recursos cinematográficos, reforçam, a cada cena, a cegueira do homem-espectador, que não encontra qualquer explicação científica para a perda ou recuperação da vista; tal como não há uma explicação para a delinquência que atinge a humanidade, dia após dia.

Mais do que desesperadora e contagiosa, a cegueira branca dá luz à verdade e revela-se de forma tão intensa, que se não nos envergonha por ser humana; continua cegando-nos, para sempre, feito bichos na busca pela sobrevivência.


As vozes de José Saramago inseridas no texto foram extraídas da Sabatina com a Folha de 29 de novembro de 2008. Assista ao vídeo: www.folha.com.br/0833310

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sonho de gente


Que terra era aquela de onde brotava a comida que alimentava pela vida as pessoas?

Que mata era aquela que acolhia o sono cheiroso de verde macio do corpo selvagem da gente?

Que rio era aquele que banhava a sujeira de dentro tornando cheirosas as cavas aconchegantes do caule vivo do campo?

E a música? A música gerada na conversa das águias no céu, nas asas dos insetos batendo entorno do vai e vem das folhagens e da água correndo em cima da terra molhada.

Numa dança. Dança que juntava as pernas da própria terra numa roda viva de ritmo, troca, encanto, onde os deuses se misturavam com a terra fazendo nascer um desejo único de gente igual, preciosa, sagrada.

Um Deus igual para pernas iguais feitas de gente forte para carregar orgulho de filho da terra viva de gente.

Por Marília Marcucci

terça-feira, 30 de março de 2010

Hoje faz um ano que perdemos o Jorge

Perdemos o Jorge

Embora a perda da vida seja a nossa única certeza, nunca estamos preparados para enfrentá-la, especialmente quando ela acontece de repente, tragicamente, com uma pessoa querida, próxima.

Perdemos o Jorge. Nosso pequeno grande realizador de sonhos de 44 anos. Corajoso. Apaixonado. Nosso líder Jorginho.

Contou-me um amigo professor, colega universitário do Jorge, que ele costumava andar pela faculdade com uma CPU debaixo do braço. Naquela época, o computador ainda era pouco acessível, de uso doméstico, mas o Jorge inventava um jeito de usá-lo em qualquer lugar, coisa que ninguém fazia ali na época.

Com o computador debaixo do braço, ele escolheu a carreira de auditoria. Foi trainee, assistente, encarregado e, aos 28 anos, sócio. Viajou muito. Um auditor sabe o que é estar longe de casa. O despertador toca e a gente acorda sem saber direito onde está. Só depois de um ou dois minutos é que a gente lembra onde vai ser o café da manhã.

Uma vez perguntei para o Jorge porque a nossa empresa carregava a palavra Prisma no nome. Ele sorriu dizendo que a idéia tinha sido dele e convidou-me para sentar. Era assim que ele fazia quando alguém chegava à diretoria e lhe fazia uma pergunta. “Senta aqui, vamos conversar”. Ele gostava de conversar com as pessoas. Refletir junto com elas. Ele era daqueles que olhava nos olhos. Fazia a gente pensar.

Sentamos no sofá e ele me explicou que Prisma era o nosso motivo. “O prisma é utilizado para refletir e espalhar luz. É sólido. Transparente. É o que nós somos. O que queremos ser”.

Era exatamente assim que o Jorge vivia cada segundo. Ele acreditava nas pessoas, gostava de conviver com elas. De ensinar e ser ensinado... em qualquer hora do dia, não importava onde... no escritório ou na casa dele... como trabalhador voluntário de bairro, escola ou instituições... nas empresas e cidades por que passava... Quantos aprenderam e ensinaram com o Jorge? Impossível contar. Como eu costumava lembrar-lhe dos seus compromissos, vez ou outra ele dizia sorrindo: “por que será que eu me envolvo com tantas tarefas?”. Em seguida, ele mesmo respondia “Sou totalmente louco por tudo isso”.

Loucamente apaixonado e viajando, o Jorge se foi, mas tudo o que ele espalhou pelas estradas da vida ficou, como um verdadeiro prisma que ele tanto queria ser, com a transparência para a qual ele sempre lutava, com a coragem de um vencedor e a certeza de ter compartilhado o que estará sempre sólido entre nós.

Marília Marcucci, redatora da Moore Stephens Prisma - fundada por Jorge Sanitá e sócios